"Lumina": A régie é que comanda mas o corpo é quem mais ordena
- artistasdaemergenc
- 17 de jul. de 2022
- 4 min de leitura
Carlos Alves
publicado em 9 de Maio de 2022
(fotografias de Estelle Valente, cedidas por Bestiário)

O Bestiário decidiu entregar à luz as decisões sobre como mostrar uma contemporaneidade e, quatro anos depois do primeiro espectáculo do colectivo, fez-se Lumina.
Estreou em Fevereiro, no Teatro Viriato (Viseu), foi depois apresentado no Cineteatro Curvo Semedo, em Montemor-o-Novo, e agora, em formato díptico, no Centro Cultural de Belém. Aqui foi servido em conjunto com Umbra, uma reposição da segunda criação estreada em 2019.
Neste texto, fala-se apenas de Lumina, a partir da apresentação de 8 de Maio, na blackbox do CCB. A encenação é de Miguel Ponte, que reparte a direcção artística com o desenhador de luz Manuel Abrantes. As fichas técnicas do Bestiário colocam sempre em evidência as funções de cada elemento em cada criação e essas funções não são sempre as mesmas. A criação até pode ser colectiva mas as responsabilidades não. Pode advir daqui uma diversidade e uma procura constante que se verificam em cada novo espectáculo. Lumina entra com estrondo nessa busca.
Os/ as intérpretes – Afonso Viriato, Helena Caldeira, Joana Petiz e Teresa Vaz - obedecem o tempo todo a uma iluminação. A luz não está onde os actores estão; estes é que estão onde ela vai estar. É a vingança de mais de um século dos iluminadores de teatro consumada por Manuel Abrantes! Os performers são obrigados a correr para a luz e, depois, a correr (a agir) dentro da luz. No entanto, a questão de Lumina não é a luz, nem podia ser porque, no teatro, a questão nunca foi essa. Lumina é sobre a luz e o que acontece dentro dela. O espaço da blackbox nunca é inteiramente visível durante todo o espectáculo; este começa na total escuridão (só perturbada pela sinalética das saídas de emergência) e nessa escuridão perdemos a noção do espaço; esperamos por alguma luz que nos “mostre o palco” mas essa luz nunca vem. O que vem é uma outra ideia de espaço – espaços rectangulares no chão para mostrar corpos inteiros e vestidos e espaços difusos no ar para dar a ver meios corpos despidos. Os corpos tapados com roupa negra movem-se, os corpos destapados estão estáticos.
Os que se movem correm para a luz e, quando aí estão, há movimento – o movimento dentro do espaço – neste sentido, o espectáculo é muito teatral. Se o aparecimento da iluminação eléctrica revolucionou o teatro, Lumina expõe os princípios dessa revolução. No entanto, redu-la a uma parte – a luz aqui não proporciona ambientes, ela cria espaços e focos de acção e de atenção. O “luz, câmara, acção” do cinema corresponde ao “luz, corpo, acção” deste teatro. São pedaços de existência humana que passam por aqueles momentos de luz.
Há algo de cinematográfico na circunscrição da intensidade. A velocidade – que vemos acontecer durante todo o espectáculo -, uma velocidade furiosa (porventura mais veloz e mais intensa do que a dos filmes com esse nome porque esta executada por corpos humanos e não por máquinas... mas também por corpos humanos que não parecem querer pôr de lado a ideia de também serem máquinas...), esta velocidade ocorre em espaços fechados e minuciosamente circunscritos pela iluminação. É nesses sítios onde ela é realmente violenta porque está circunscrita, porque não há mais para onde olhar, porque é evidente.
Mas o espectáculo não é só imagem, ele também é som. E a música e ambiente sonoro – da responsabilidade de Filipe Baptista – são sublimes e misturam-se com o movimento e energia dos corpos de uma forma que, em certos momentos, chega a ser mágica. Em Lumina, a iluminação impõe-se mas a sonoridade dispõe-se. Só damos pelo som quando ele tem mesmo de se afirmar e, nos restantes momentos, ele está lá apenas como se de uma existência primordial se tratasse.
Todo o espectáculo obedece a uma partitura rígida e há muita beleza nisso – intérpretes que executam uma pauta de movimentos. E essa pauta tem uma melodia. Ela fala da velocidade com que os corpos são empurrados, com que somos empurrados; de sociedades que andam depressa demais e caminham para a totalidade (“Agora e Aqui/ Agora Sempre/ Agora Já” [assim começa o texto verbal do espectáculo]). São poucas as palavras ditas neste espectáculo, ou melhor, são ditas em pouco tempo, porque são ditas depressa. As palavras saem com velocidade, proferidas por corpos que se misturam com máquinas; são pessoas que agora são metade humanas metade projectores PAR, estão ligadas à luz para sempre e almejam a totalidade do ser contemporâneo, muito rápido como a contemporaneidade impõe.
Agora vou ser um canal por onde tudo passa, a luz, o ruído, a velocidade,
Agora sou transparente para tudo o que queira atravessar-me
Compreendemos, quando o actor e as actrizes o verbalizam, que os espaços de luz pretendiam ser projecções de uma totalidade do mundo. Nessa totalidade cabem Jesus Cristo de braços abertos, pessoas ajoelhadas (por causa desse Cristo de braços abertos ou por outra coisa qualquer, outra mendicidade qualquer), pessoas que sorriem, outras que dançam ferozmente, há cabelos, pés, joelhos e cabeças, há folclore; a luz passa e deixa ver na totalidade, depois esvai-se e não vemos para além do imediato.
Agora sou a rede e a rede é tudo
Os corpos humanos passam a emissores de luz nesta ambiguidade pessoa – máquina. Eles carregam a luz; na escuridão, é como se fossem mesmo a luz.

Nesta criação do Bestiário, a palavra régie parece ser levada a sério, já que o jogo cénico aparenta estar a ser regido, lá está, pela régie. E é em parte verdade mas não é a verdade toda. O espectáculo não vive só da partitura, mora também numa cadência bem definida. Tem tempos muito precisos, respirações e acelerações, posturas e gestos que a encenação de Miguel Ponte torna possíveis. Ela é muito rigorosa mesmo a alta velocidade e sabe gerar tempo quando é preciso respirar.
Já o percurso que os/ as intérpretes fazem é o da humanidade até algo próximo de um transumanismo e esse é um caminho que vemos traçado nos corpos, nos rostos, na contracção dos músculos, nos pingos de suor que a luz deixa ver. O domínio do corpo, das expressões, da enunciação verbal é total, preciso e rigoroso.
O colectivo Bestiário conseguiu, nesta sua sétima criação, colocar um foco no movimento dentro de um espaço. E fizeram isso porque estavam a pensar na luz. Uma forma de focar numa coisa é tantas vezes focarmo-nos noutra!

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